ESPECIAL: Conheça Thaíza Zorzi, 1ª vilhenense, que aos 12 anos, foi selecionada para estudar na escola da maior companhia de balé do mundo

Viagem está marcada para este mês; saiba como é a vida, a rotina de estudos e como a família encara o novo desafio

Arte: Isabely Melo/RO Notícias

Pequena em tamanho, mas grandiosa em talento. É assim, com essa impressão encantadora, que a delicada Thaíza Zorzi hipnotiza a todos com seus graciosos movimentos, carregados de habilidade, fruto de seu comprometimento com o balé.


Mesmo ainda, na pré-adolescência, a garota tem tudo para seguir os passos de grandes nomes desta que é uma das três principais artes cênicas, figurando, por exemplo, ao lado de Amanda Gomes, eleita melhor bailarina do ano, em 2020, na Rússia, aos 24 anos, que foi embora com a bagagem, junto da família, para Joinville (SC), ainda criança para se dedicar à dança; e Mariana Gomes, lenda conhecida como a primeira brasileira contrata para fazer parte do elenco principal do Teatro Bolshoi, maior companhia de balé do planeta.

Amanda Gomes | Foto: reprodução
Mariana Gomes | Foto: reprodução

O destino de Thaíza também está traçado para Joinville (pelo menos esta é a primeira parada antes dos palcos mundo afora), onde fica a Escola de Teatro Bolshoi no Brasil, inaugurada em 2000, sendo a única filial do Teatro Bolshoi fora da Rússia, que foi fundado há quase dois séculos e meio.

Rose, mãe da menina de ouro, conta que ainda tem dúvidas sobre sua ida para o sul do país, afinal, serão longos anos de estudo bem longe do aconchego da família, mas que não pretende interferir na escolha da filha: "É uma decisão muito difícil, mas é uma decisão dela."

"A Thaíza é muito família. A gente almoça juntos, tomamos café juntos (...) fazemos tudo sempre juntos. Vai ser um desafio pra ela ficar longe de todos. Mas eu estou indo com ela, ficarei os primeiros 30 dias lá, pra conhecer a mãe de afeto dela... conhecer, e ver se a Thaíza vai gostar ou não."

- Explica a mãe coruja, num misto de apreensão e orgulho.

Mesmo sabendo que a mãe segue viagem como acompanhante, e que pretende permanecer o primeiro mês com ela em Santa Catarina, Thaíza também se preocupa com a família que fica em Vilhena, esperando e torcendo por boas notícias. Incrivelmente, a menina conversa como "gente grande". É o que conta Rose: "ela me disse: Mamãe, eu quero que a senhora vá junto, conheça minha 'mãe Bolshoi', mas eu quero que a senhora volte e cuide do meu pai; A preocupação dela, nesse momento, é a família dela estar unida aqui." – diz. 

Foto: Anderson Ferreira/RO Notícias

Rose e o esposo, Roberto Zorzi, têm três filhas. Ela conta que as meninas são muito grudadas e que o esporte sempre foi incentivado dentro de casa, desde cedo, assim como qualquer outra representação de atividade ou arte. Tanto que antes do balé, Thaíza passou primeiro pela Ginástica Rítmica, por influência da irmã mais velha, que tinha 5 anos (hoje, 17) quando começou a praticar o esporte. Rose levava Thaíza junto o treinamento, e ficavam observando as aulas, enquanto a pequena crescia assistindo aos movimentos da irmã. A mãe só percebeu que ela estava tomando gosto pela ginástica quando presenciou um episódio inesperado, enquanto realizava afazeres domésticos, que lhe rendeu um grande susto seguido de alívio na mesma proporção, quase que instantaneamente: "um dia, eu estava lavando roupa, e ela falou assim: Aaai! (...) Aí, fui ver, ela não chorou... pensei que tinha acontecido algo, que tivesse caído... mas ela tinha era feito abertura! Daí para frente, as pessoas olhavam e ela estava fazendo abertura."

"Era lindo aquele 'toquinho' fazendo abertura" 

– lembra ela.

Toda essa habilidade surgiu depois de uma percepção antiga dos pais da menina, como se fosse o futuro pregando uma peça ao que eles achavam: "quando a Thaíza tinha dois aninhos e ficava olhando a irmã dançar, eu e o pai pensávamos: 'ela é muito durinha, não vai ter futuro pra dança.' Mas hoje, ela tem uma flexibilidade que poucas pessoas têm como ela." – mesmo nunca tendo feito fisioterapia ou passado por outros preparos.

Já, em 2013, prestes a completar 4 anos, Thaíza começou a assistir a irmã praticar outra paixão: o balé. Foi o primeiro contato da criança prodígio com essa arte. Ela assistia aos novos ensaios da irmã mais velha até que Rose resolveu matriculá-la, também. Foi aí que Thaíza conheceu sua primeira professora, Natália Reis. Foi ela quem avisou para Rose que sua nova aluna estava pronta para a primeira apresentação, mesmo após o término do segundo dia de aula. E mais: marcado para a mesma semana do início dos estudos. Foi um sucesso! 

A primeira passagem da menina pelo balé durou dois anos. Em 2015, ela, que sempre seguiu os passos da irmã, voltou para a ginástica rítmica onde permaneceu por mais 4 anos – e ganhou medalhas – as duas ganharam. Uma vida agitada e tanto para uma criança.

"Eu Só não quero que ela fique dentro de casa, na internet, aprendendo coisas sem futuro." 

– Adverte Rose.
Dy Carrilho, bailarina, profesora e proprietária do Petit Pas Studio de Danse | Foto: Anderson Ferreira/RO Notícias

PREPARANDO O VOO


Foi no final de 2019 que a bailarina e professora de balé, Dy Carrilho, como gosta de ser chamada, entrou na vida de Thaíza. A essa altura, a irmã mais velha, adolescente, passou a focar em outros objetivos, como ganhar o próprio dinheiro. Thaíza, na época com 11 anos, também já apesenta uma visão mais definida de futuro e objetivos. Agora, começava, de fato, o bater das asas.

"É muito difícil a gente pegar uma aluna com as duas coisas mais importantes que o balé precisa: o potencial genético e a capacidade de aceitar críticas, correção", conta a professora e proprietária do Petit Pas Studio de Danse, "Estúdio de Dança Pequeno Passo", em tradução livre do francês. 

"Ela vê como algo que vai fazê-la melhorar. E isso não é só para o balé, é para a vida. Será muito difícil pegar outra aluna como ela. Pois não é só ter alongamento que vai ser uma bailarina Bolshoi ou mesmo uma bailarina profissional. Tem que ter essa parte cognitiva muito amadurecida." 

– explica com satisfação.

Como Dy faz questão de deixar claro, o discernimento para ligar o filtro e absorver apenas as críticas construtivas é essencial porque "lá, o que ela mais vai escutar é correção. Se fosse pra ela chegar lá para ensinarem o que já sabem, não haveria nenhum sentido".

A pandemia afetou toda a rotina do estúdio de dança, com tantas dificuldades e a exigência de manter o mínimo possível funcionando para diminuir o contágio do novo coronavírus, causador da covid-19. "2020 foi um péssimo ano financeiro, mas foi o ano que me trouxe a Thaíza até a escola, então assim, a gente sempre tem que olhar os dois lados", diz Dy, com gratidão. 

"A gente tem álcool em gel na entrada da escola, em todo o lugar, o distanciamento, temos um espaço muito amplo, optamos por colocar climatizadores... Então, assim, o que puder ser feito, a gente faz."

Por isso, Thaíza teve de treinar em casa, praticando o conhecimento técnico que aprendeu com Dy, assistindo às vídeo aulas online da professora, e fazendo tudo mais o que fosse possível para não perder o jeito da coisa. Percebendo a grande evolução da menina, mesmo aprendendo de forma remota, surgiu a ideia de inscrevê-la na seleção da Escola de Teatro Bolshoi no Brasil. As chances eram mínimas, quase remotas, mas não custava tentar.

Foto: Anderson Ferreira/RO Notícias
Foto: Anderson Ferreira/RO Notícias

DISPUTA

Era preciso passar pela fase de avaliação online, depois médica, e ainda, artística e cognitiva. "Entrar nessa seleção é dificílimo. Inclusive, a mãe da Thaíza, que a levou lá, percebeu que havia muitos alunos repetindo a seleção há cinco anos. E a Thaíza, de primeira, passou em todos os testes e entrou", conta.

"Ela realmente está pronta e eles perceberam isso!" 

– Afirma com alegria.

"Aqui o nosso método é misto. É o Royal e o Vaganova. Lá, é só o método Russo. Então, vai ser um momento de adaptação, um novo método, de fortalecimento muscular... ela vai sentir muita dor... Aqui ela faz uma hora e meia de aula, lá ela vai fazer quatro horas...É outra realidade. Assim, ela vai passar por momentos bem difíceis. Mas o importante é ela querer, e ela me disse que é isso que ela quer." – explica a bailarina sobre o futuro árduo que espera por Thaíza para se destacar e se tornar uma das melhores do mundo.

"Eu passei um final de semana chorando, ai... foi difícil, eu chorei bastante. É como se a ficha tivesse caído só agora que vai se aproximando, né? O coração tá ficando apertado. As minhas filhas são muito grudadas, assim, e muito apaixonadas pelo pai. Essa é uma das dificuldades." 

– conta mãe sem saber se ri de orgulho ou se chora (um pouco mais) de receio da distância.

Serão oito anos pela frente. Tão pouca idade, mas tanta responsabilidade. E a garota sabe do tamanho do desafio, que encara sorridente, descobrindo os dois pesos da balança: "tá sendo muito legal, é uma experiência única." 

"Mas também tá sendo bem difícil. Pra eles (os pais) também está sendo bem difícil, porque minha mãe ainda não tem a decisão dela. Meu pai também não. Mas estou preparada pra ir"

- Diz a talentosa aluna.

O FUTURO DE THAÍZA

Dy diz que é uma pena que no Brasil não haja uma estrutura tão boa para fazer com que um bailarino ganhe bem. "Até consegue, né? Dançar e tal... mas ganhar bem é bem difícil. Então, eu acredito que a Thaíza vai sair do Brasil. Eu acredito nisso! Por questão financeira mesmo, porque ela vai ver que a perspectiva de crescimento visa dinheiro para sobreviver e que lá, ela será mais valorizada financeiramente."


"Assim como minha filha teve essa chance, eu acredito que Vilhena tem muitos talentos! O Balé não é só dança. É uma arte, é conhecimento." 

Diz a mãe de Thaíza, com muita sabedoria

"Se ela ficar realmente ficar e passar os 8 anos na escola, o futuro dela não é no Brasil. É em alguma companhia, mas fora do país. Não sei dizer se felizmente ou infelizmente, mas eu vou sempre estar feliz com o sucesso, a felicidade e as vitórias dela, com certeza." – completa Rose.

Dy, médica de formação e que trabalhou por quase duas décadas no ramo, nunca se sentiu tão orgulhosa profissionalmente como agora.

"Nossa, é disso que eu mais me alegro! Eu trabalhei na medicina durante 15 anos e esse é um dos momentos em que eu mais me senti realizada. Eu acho engraçado isso, de largar uma profissão em que a gente salva vidas... mas, agora, eu MUDEI uma vida! O futuro dela vai ser completamente diferente e isso, realmente, me emociona muito." 

Conta.

"As crianças olham na TV e veem ginastas, bailarinas, e os pais ficam podando. Acham que é algo distante. E, gente, não é distante. Quando você tem um sonho e batalha por ele, você alcança. Tiro isso por minha filha de apenas 12 anos. Ser bailarina é uma escolha dela, não minha. Eu simplesmente apoio." – alerta Rose sobre a importância do incentivo dos pais às atividades dos filhos, sobre profissões e caminhos a trilhar.

Quanto ao próximo capítulo desta história, Thaíza, agora, só tem uma coisa a dizer: 

"Olha... eu acho que vai ser bem legal. Vou tentar me divertir e aprender ao máximo."

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