"MULHER, NEGRA, GORDA" Patrícia da Glória fala sobre preconceitos a serem vencidos pela sociedade

Conheça um pouco mais sobre a história e sobre o que pensa a vice prefeita  Patrícia da Glória

Foto: Reprodução/vice-prefeita Patrícia da glória

O RONOTICIAS entrevistou a vice prefeita Patrícia da glória, com a intenção de conhecer um pouco mais dessa mulher empoderada,  ela que é também assistente social do município de Vilhena, e esta buscando formação em sociologia com o intuito de compreender melhor a sociedade.

RONOTICIAS: Quem é Patrícia da Glória?

PATRÍCIA:

É uma pessoa que briga por direitos sociais, me formei nessa área, sou assistente social, estou me formando agora em sociologia para poder entender melhor a sociedade. Me capacitei para intervir na vida daqueles que necessitam.

RONOTICIAS: De onde vem Patrícia, como se desenvolve profissionalmente para chegar até o cargo como assistente social?

PATRÍCIA:

Vim do Paraná,  nasci em Campo Mourão. Cheguei em Vilhena em 1983, com 6 anos de idade. Sou criada por avôs, sou de família muito humilde. Com o passar dos anos eu fui crescendo e comecei a pensar sobre qual curso eu faria, para tentar melhorar a questão das famílias humildes, da pobreza. Foi onde me formei em assistência social.

RONOTICIAS: Como foi para você aplicar a utopia com a realidade?

PATRÍCIA:

A teoria é muito diferente da realidade, mas eu vejo assim, "a teoria ela vai me dar o embasamento de como eu vou aplicar na pratica".

RONOTICIAS: Como foi para você ver a sua aproximação com a esfera política?

PATRÍCIA:

Foi um processo, eu fui coordenadora de CRAS, de CREAS, fui técnica, assessora e depois me tornei secretaria municipal de assistência social e agora vice-prefeita. Acredito que no cargo que estou, não esta sendo difícil trabalhar porque estou no atendimento de pessoas. Eu já tinha uma base, não cheguei de uma vez.

RONOTICIAS: Como foi para você fazer a transição de colaboradora para gestora de uma pasta, quando recebeu o convite do prefeito para ser secretária municipal?

PATRÍCIA:

Eu sempre digo assim" tudo que você for fazer, faça bem feito, porque alguém vê". Fiquei muito surpresa, mas eu não sou de desperdiçar oportunidades, eu agarro ela com todas as forças. Então eu acredito que ele percebeu isso e me fez o convite. Mas eu já estava preparada para dizer não, por achar que eu ia ser adjunta a esposa dele, mas quando cheguei lá ele me falou "a gente esta falando de uma pasta". Fiquei muito surpresa e até hoje eu ainda penso no tamanho da volta que a minha vida deu em 3 anos. Eu fico grata porque é difícil buscar conhecimento em um país que a gente sabe que é machista. Eu sou mulher,  eu tenho três condições que me torna alvo de preconceito." Mulher, negra e gorda" Então eu tenho que fazer tudo bem certo, tenho que provar minha capacidade a  todo momento.

RONOTICIAS: O  que representa para você o turbante, para que você pudesse buscar o direito de estar em seus documentos oficiais?

PATRÍCIA:

Aceitação! daquilo que agente gosta, daquilo que não é imposto. É um adereço africano que eu gosto e se eu gosto porque não aceitar, porque não é legalizado? eu já cheguei a fazer concurso com o mesmo turbante que eu usei no meu RG. Uma vez eu fui juri, ai eu perguntei para a juíza, eu posso ficar com meu turbante? e ela falou que sim, eu fiquei muito surpresa. Então é assim, quebrando as barreiras da aceitação.

RONOTICIAS: Durante a campanha tentaram atrelar sua imagem a religião afro brasileira que é alvo de preconceitos, certo?

PATRÍCIA:

Sim, e o que me entristeceu é que isso foi levantado por pessoas que me conhecem, que conhecem a minha família. Minha mãe é do meio religioso então ela sempre me levou. A população de Vilhena tem predominância religiosa, então tentaram levantar a imagem de que eu era da religião afro, que é associada por pessoas que não conhecem, ao mal. Algumas pessoas foram penalizadas pela justiça pelo que fez e outras eu sempre disse "deixa o agir de Deus que ele é perfeito". Mas é uma religião por constituição e precisamos respeitar, eles tem o livre arbítrio e o mesmo direito que nós de seguir a religião deles".

RONOTICIAS: Você acha que isso aconteceu por você defender a cultura afro, e o uso de adereços dessa cultura?

Sim, uma pessoa espírita conversou comigo e falou, "você não se veste igual a gente, nós não nos vestimos assim colorido". Mas nós temos que respeitar as pessoas, tem gente que gosta de se vestir com roupas curtas e da mesma forma tem outras que gostam de se vestir no estilo africano, indiano. Precisamos ter o entendimento de respeitar e não associar esse estilo africano para religiões que a sociedade discrimina.

RONOTICIAS: Você sempre foi do âmbito evangélico certo?

PATRÍCIA:

Sim, minha mãe era da assembleia de Deus e meus avôs eram da congregação cristã, então eu cresci nessa base, e carrego os princípios, embora eu não esteja frequentando uma especifica. Mas eu gosto, ouço em casa, se me convidar eu vou. Nessa época em que fui associada a religião afro, eu fiquei assustada com a forma que está forte ainda essa questão do preconceito.

"percebi nesse meu período que o preconceito ainda existe de forma muito grande. O negro é associado a tudo o que a sociedade discrimina".

RONOTICIAS: Como foi para você receber o convite do prefeito para ser vice dele?

PATRÍCIA:

As vezes eu acho que a ficha ainda não caiu, porque eu estava me preparando para ser candidata a vereadora e de repente o convite. E a gente sabe que não basta somente saber, alguém tem que te dar a oportunidade, e o Eduardo foi essa pessoa. E ser mulher já é difícil. Ser mulher e negra é ainda muito mais complexo. Então, receber essa oportunidade foi maravilhoso para mim.

RONOTICIAS: Você teve receio em sofrer machismo por parte do prefeito?

PATRÍCIA:

Eu não sou muito de me vítimizar, eu sou de ir atrás, acho que foi isso que nos aproximou. 

RONOTICIAS: O que te surpreendeu na esfera política?

PATRÍCIA:

Eu me senti leve, porque era o mesmo público que eu já trabalhava a 10 anos, então eu fui confiante. Fui bem acolhida pela sociedade, fui bem aceita no meio social. Até mesmo por conta dos trabalhos que eu já executava antes de ser vice-prefeita.

RONOTICIAS: O que você tem a dizer para as outras mulheres que acham que não conseguem assumir cargos de chefia?

PATRÍCIA:

A mulher foi criada para ser do lar, mas a cultura do nosso pais vem se rompendo. Dificuldades existem, mas não podemos desistir na primeira barreira que encontrarmos. " acredite em você! acredite no seu potencial, e não espere que alguém diga qual é sua capacidade".

O feminismo iniciou no século XIX, quando as mulheres começaram a ter consciência de que não podiam resumir suas existências apenas em função do lar e da família. Foi nessa época que grupo de mulheres brancas e socialmente bem sucedidas, começaram a organizar movimentos exigindo representatividade política, o direito a educação e de poder ter suas carreiras fora do lar.  Em contrapartida a mulher negra conseguiu representatividade apenas nesse século, mesmo tendo lutado desde a primeira onda do feminismo, contudo suas vozes não tinha a mesma importância que das outras mulheres, já que a mulher negra nem ao menos era considerada mulher e executava trabalhos masculinos lado a lado com os homens negros nas lavouras das casas grandes. 




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