Índios Nambiquaras mantêm tradição cultural centenária em Rondônia

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Ritual celebra passagem da índia para a vida adulta. 

Índios Nambiquaras mantêm tradição cultural centenária em Rondônia (Foto: Divulgação)

Com a tradicional festa da "Menina Moça", os indígenas passam as tradições para os mais jovens. Ritual celebra passagem da índia para a vida adulta.

Vilhenenses retrataram a cultura indígena através da produção de vídeo documentário que já conta com quase quatro milhões de visualizações no You Tube.

É no meio da floresta que os indígenas Nambiquaras que povoam Rondônia e também o Mato Grosso, estados localizados na Amazônia Legal tentam manter viva toda a sua cultura e tradição através da realização do ritual da "Menina Moça".

Segundo o cacique Davi Tawandê, o ritual é muito importante, pois marca o rito de passagem da fase da vida das meninas para a vida adulta para que jamais esqueçam o povo que pertencem, mantendo viva a cultura Nambiquara.

Davi explica que as adolescentes Nambiquaras, vêm ao longo dos anos passando pelo ritual que prepara as jovens para a vida adulta. O ritual faz parte da cultura Nambiquara e é considerado um momento inesquecível na vida dessas garotas. Para os indígenas a continuidade desse ritual é a continuidade das tradições do próprio povo.

Com danças e comidas a festa marca a cultura de toda a tribo, pois todos participam da organização do ritual. De acordo com a professora indígena Ana Tawandê, o ritual exige esforços e envolvimento de toda a comunidade. 

"São vários meses de organização, inclusive para receber os parentes de outras comunidades que são convidados a participar. Para a festa as cozinheiras prepararam carne, beiju e pescado, além de chicha de mandioca e milho, que são servidas durante o ritual, para manter a energia na roda de canto e dança durante toda a madrugada. O ritual é muito lindo e ficamos muito felizes em poder realizar e passar essa tradição para os mais jovens", 

conta a professora.

Ana Tawandê explica que o ritual começa por ocasião da primeira menstruação das adolescentes. Momento de novamente realizar o ritual da menina-moça. Em uma reunião comunitária, convocada pelo cacique e os pais das meninas, todos decidem como serão os preparativos para a festa.

Já a indígena Matilde Mamaindê explica que passar pelo ritual é muito benéfico para as mulheres."Quando a menina passa pelo ritual ela fica mais saudável e evita que as jovens adoeçam agora ou em qualquer momento da vida. Dentro da oca, recebem orientações das mães e outras mulheres mais velhas sobre como se comportar como mulher, lições valiosas para o resto da vida, esse é um momento das mulheres tanto que os homens não entram na oca onde a menina fica presa entre 3 a 12 meses, isso depende da escolha dos pais", fala Matilde.

No dia da festa, as meninas-moças são enfeitadas para saírem da reclusão bonitas explica Matilde Mamaindê. Ao entardecer, um padrinho, escolhido pelo pai da moça, abre uma parte da oca, dá a mão a ela e a tira para dançar. De cabeça baixa, a moça sai da casinha e entra na roda, formada por homens e mulheres, que cantam e dançam, alegremente, de mãos dadas, até o amanhecer, por mais de 10 horas seguidas, sem parar. Durante todo esse tempo, elas não podem levantar a cabeça. Os cânticos geralmente são desafios entre grupos, o que gera um clima de muita alegria, risos e gritos indígenas. Os jovens se divertem e os mais velhos dão o exemplo de resistência.

Quando surgem os primeiros raios de sol, os caciques e pajés colocam pedaços de beijus e peixe nas mãos das meninas-moças, como oferenda. Elas vão para o centro da roda e ficam ajoelhadas no chão. Este é um momento emocionante do ritual, quando o pajé autoriza que levantem o olhar, para ver a vida, para ver o sol, um novo ciclo que se inicia.

Os Nambiquaras sempre colocam entre as meninas-moças uma mais nova, para enganar os espíritos ruins. Essas devem voltar a passar pelo mesmo ritual, depois de menstruarem. Não pode fazer barulho nenhum. Então, essa é hora de ter consciência. As meninas merecem uma festa grande, festejar a idade que têm esse momento importante.

O pajé Paulo Mamaindê revela que os indígenas mais velhos têm medo de que pelo preconceito e discriminação que a cultura indígena vem sofrendo ao longo dos anos, os jovens possam abandonar suas tradições, por isso é importante mostrar aos jovens que o povo indígena tem tradição. Com uma população reduzida, manter viva a tradição dos Nambiquaras é, sobretudo um ato de resistência.

Índios Nambiquaras mantêm tradição cultural centenária em Rondônia (Foto: Divulgação)
Índios Nambiquaras mantêm tradição cultural centenária em Rondônia (Foto: Divulgação)

"A gente tem que continuar o que os nossos antepassados faziam e levar isso em frente preservando nossa cultura com orgulho da nossa historia", 

ressalta o pajé.

Depois que a moça Nambiquara passa pelo ritual, já pode se casar. Mas nem sempre é preciso fazer isso. Elas podem ainda estudar. É o caso da adolescente Hana Mamaindê, de 12 anos, que passou pelo ritual em 2018 e voltou para casa com os pais para estudar.

A indígena Ana Mamaindê conta que foi emocionante ver a neta Hana passar pelo ritual. "Estou alegre em ver minha neta seguindo nossa tradição. Isso me faz lembrar do meu ritual e das minhas filhas. Fico feliz em saber que apesar da modernidade a tradição está sendo respeitada", ressalta Ana.

Documentário vilhenense

Os produtores culturais vilhenenses Washington Kuipers, Marcio Guilhermon e Andréia Machado produziram o documentário "Os Nambiquaras e o Ritual da Menina-moça" que já alcançou quase quatro milhões de visualizações no YouTube.

O curta metragem foi produzido em Vilhena e contemplado com o prêmio de vídeo documentário "Lídio Sohn" do Governo de Rondônia através da Superintendência da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer (Sejucel). De acordo com Washington Kuipers, o documentário tem a duração de 27 minutos e retrata o ritual da menina moça.

Andréia Machado afirma que foi uma surpresa agradável saber que o documentário está fazendo sucesso na internet. "Fizemos o documentário com todo amor e carinho e postamos torcendo para que ele tivesse uma boa recepção pelo público, mas não imaginávamos que ia ser tão boa assim. Estamos muito felizes e isso nos motiva a continuar produzindo. Já estamos trabalhando em outro projeto que também vai retratar a cultura amazônica", ressaltou Andréia Machado.

O produtor cultural Marcio Guilhermon lembrou que a obra foi exibida nos municípios de Vilhena, Pimenteiras do Oeste, Ji-Paraná e Porto Velho.

"Além oferecemos oficinas de audiovisual nestes municípios, tudo com objetivo de incentivar a produção de cinema em Rondônia", 

disse Marcio Guilhermon.

"Espero que as pessoas continuem assistindo o documentário e que possam conhecer e valorizar a cultura amazônica", 

disse Marcio Guilhermon que também informou que o filme pode ser visto através do link:​ https://youtu.be/mQf2mFJXyY4

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