“Exposição” de crianças para adoção causa polêmica nacional

Entidades do Mato Grosso promoveram desfile de menores à pretensos pais adotivos  

O desfile foi comparado a feiras de escravos realizadas na época do Brasil Imperial

 O caso virou notícia nacional e gerou polêmica por envolver instituições públicas, inclusive a OAB. Os críticos não concordam com o método adotado para busca de lares à crianças que precisam de adoção, afirmando que este tipo de exposição seria abusiva e despropositada. Os organizadores do desfile defendem a iniciativa, alegando que atitude criminosa é manter essas crianças na atual situação, necessitando de um lar e uma família para viver. A "exposição" aconteceu num shopping center de Cuiabá (MT), contando com crianças e adolescentes de 4 a 17 anos, e foi realizado na noite de terça-feira 21.

A ação foi promovida pela Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (AMPARA), em parceria com a Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da Ordem dos Advogados do Brasil -- Seccional Mato Grosso (OAB-MT), e teve como pano de fundo um desfile de modas. Na passarela instalada no Pantanal Shopping desfilaram, maquiadas e produzidas, as crianças que buscam família adotiva. A iniciativa chocou psicólogos.

O evento foi denominado "Adoção na Passarela", sendo que o desfile desta semana já é a segunda edição da produção. Os jovens foram expostos para serem apreciadas ao público presente no shopping, lembrando os leilões que eram realizados no país no tempo da escravatura.

A presidente da Comissão de Infância e Juventude da OAB-MT e da Comissão Nacional da Infância, Tatiane de Barros Ramalho, abriu o evento discurso direto, tentando justificar a promoção: "Será uma noite para os pretendentes -- pessoas que estão aptas a adotar -- poderem conhecer as crianças. A população em geral poderá ter mais informações sobre adoção e as crianças em si terão um dia diferenciado em que elas irão se produzir, cabelo, roupa e maquiagem para o desfile. Na última edição, dois adolescentes, um de 14 e o outro de 15, foram adotados. E esperamos novamente dar visibilidade a essa crianças e adolescentes que estão aptas a adoção. E como sempre dizemos: o que os olhos veem o coração sente".

As notícias sobre o evento provocaram um debate intenso sobre a desumanização das crianças que desfilaram. O advogado e escritor Eduardo Mahon pediu desculpas à AMPARA e comparou o desfile a uma feira de escravos frequentada por latifundiários em busca de "trabalhadores", os quais avaliavam pelo porte e pelos dentes.

Nas redes sociais, também não faltaram comparações entre a "Adoção na Passarela" e feiras de adoção de animais, além da repetição da pergunta que nenhum dos responsáveis pelo evento respondeu até o momento: como é o impacto de uma experiência dessas para a criança ou o adolescente que se produz e, depois, não é acolhido por nenhuma família?

Na opinião de Sandra Lia Nisterhofen Santilli, psicopedagoga e Conselheira Vitalícia da Associação Brasileira de Psicopedagogia Seção São Paulo, o "Adoção na Passarela" pode ser bem traumático para os jovens que desfilaram. "Até o momento custo a crer que tenha ocorrido de fato", lamentou.

A potencialização da polemica se deve também ao fato do próximo sábado (25) ser marcado pelo Dia Nacional da Adoção. 

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